Mostrando postagens com marcador Lu Candido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lu Candido. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de setembro de 2025

POR LU CANDIDO :: 

Setembro Amarelo: urgência de olhar além da cor das campanhas superficiais que não enfrentam as questões sociais do sofrimento

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

POR LU CANDIDO ::
“A régua que mede o seu valor precisa estar dentro de si. E isso já é o suficiente.” Quando comecei a ler Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong, da autora sul-coreana Hwang Bo-reum, não esperava me deparar com uma frase tão marcante. Essa máxima resume não apenas o livro, mas também um aprendizado profundo.

sábado, 23 de março de 2024

POR LU CANDIDO ::
Estamos nos aproximando do Dia Mundial do Transtorno Bipolar. Estou há dias pensando no que escrever.


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

POR LU CANDIDO :: 
Uma das coisas mais cruéis do transtorno bipolar é que você não pode ser normal nunca. Bipolares entenderão. Por mais que avance o debate sobre saúde mental, a sociedade ainda não aceita que sejamos doentes.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

POR LU CANDIDO :: 

Se você se interessa por saúde mental, ponha esta série na sua lista [contém spoiler].

“Uma dose diária de sol” é uma série de drama[1] sul-coreana que estreou em novembro de 2023 na Netflix, dirigida por Lee Jae-kyoo. A história é baseada em um famoso webtoon com o mesmo nome, de Lee Ra-ha, uma ex-enfermeira que se inspirou nas suas experiências reais para criar as histórias.

 

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

POR LU CANDIDO :: 


Desculpem-me, não sei se vou aguentar a pressão. Infelizmente sou muito fraca. Não vou ter estrutura para viver muito tempo esta situação. Prefiro morrer. Eu quero morrer.
Cachoeirinha, 6/7/1998, segunda-feira, 8h20

Apesar de tudo que está acontecendo, eu não quero morrer. Eu quero muito viver. Quero me encontrar para poder viver de verdade. Se não der, tudo bem. Não tenho este apego à vida que todo mundo tem. Mas, por enquanto, tenho esta ânsia por descobrir como viver.
São Paulo, 6/9/2018, quinta-feira, 12h29

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

POR LU CANDIDO ::
No texto “Luto: presa no limbo infinito”, expressei como estava me sentindo quanto à ruptura com a minha psiquiatra, que me tratava há cinco anos. A construção da relação psiquiatra-paciente é um trabalho muito profundo. Quando feito direito. Infelizmente, não é o que costuma acontecer, e uma consulta pode transformar-se num evento trágico ou, quando você consegue superar, cômico.

Em casos como o meu, quando já se tem um diagnóstico, um CID (Código Internacional de Doenças), o padrão é você entrar no consultório e, assim que você informa isso ao médico, ele passa a tratar como uma doença qualquer. “Tem alergia a alguma medicação?”, pergunta enquanto preenche a receita. “Volte daqui um mês”, e você vai embora. Só que as doenças mentais são um pouco mais complexas.

No meu caso, por exemplo, o tratamento precisa acompanhar meu humor. Além disso, o médico precisa saber de sua vida: o que você faz, se estuda, se trabalha, se está em um relacionamento, enfim, sua história. Ele tem que entrevistar você, porque os fatores socioambientais são muito importantes para a manutenção da saúde mental. Isso não se faz em dez minutos.

O médico que diagnosticou o TAB (transtorno afetivo bipolar) em mim, lá em Porto Alegre, era ótimo. Minha psicóloga da época o indicou. Ele passou semanas investigando, me questionando e observando até bater o martelo. Mas me mudei para São Paulo e aí... teve de tudo, inclusive um período sem tratamento nenhum. Não por negacionismo, mas porque simplesmente cansei. Até surtar.

Houve um médico que me perguntou qual medicação eu tomava enquanto preenchia a receita. Não só: ele perguntou as dosagens. Eu: “O senhor quer que eu preencha? O senhor pode só assinar, é mais fácil”. Eu disse isso só na minha cabeça, porque precisava muito das receitas e não queria que ele me corresse de lá.

Outra vez, eu estava na sala de espera lotada de um consultório quando uma mulher apareceu e perguntou: “Quem são vocês?” A voz dela era grave, alta e dava medo. Ninguém respondeu, imagino que por não saber o que dizer. Pelo menos esse foi meu caso. Até que alguém timidamente disse: “Tenho hora com a dra. Fulana”. A mulher sem alterar o tom de voz: “Sou eu. Vocês têm que ir embora. Vão dedetizar o prédio”. Virou as costas e saiu. Pode rir sem culpa.

Teve uma médica com quem me tratei alguns anos. Eu gostava dela, principalmente porque me liberou do lítio. Sim, eu pensava que isso era bom e não me orgulho disso. Foi ignorância da minha parte. É o principal regulador de humor, melhor neuroprotetor, mas também é o mais estigmatizado. Enfim, tudo ia bem até o dia em que ela teve um surto (real) no consultório. Começou a gritar que meu problema era “as pessoas com quem eu andava” [?]. Nunca mais voltei, mas antes garanti que ela fizesse seu trabalho e me desse as receitas. A última notícia que tive dela me leva a crer que esteja acampada na frente de algum quartel.

Essas são só algumas das coisas que vivi. Tenho certeza que não sou a única, que algum de vocês já passou por algo parecido. Sou curiosíssima com isso! Me conta!

queriaserpsicologa@gmail.com

Foto: Karolina Grabowska

POR LU CANDIDO :: Estava exausta e quase desistindo quando entrei em seu consultório há cinco anos. Era uma das trinta salinhas de quatro ou cinco metros quadrados, na clínica psiquiátrica que atendia meu convênio.

Não lembro exatamente por quantos psiquiatras havia passado desde que me mudara para São Paulo onze anos antes, mas com certeza ocupavam mais que as duas mãos. Assim, quando sentei na frente da Dra., não esperava mais do que uma ou duas perguntas breves enquanto ela fazia as receitas.

Essa era uma situação que eu realmente já havia aceitado. Só precisava de alguém com CRM para me dar receitas, e o resto resolveria na terapia – ou aceitaria a falta de solução. Mas não foi assim. Depois de uns vinte minutos, saí do consultório com as receitas devidamente ajustadas e uma consulta médica de verdade.

Hoje, 26 de dezembro de 2022, ao entrar em contato com a clínica para marcar um teste neuropsicológico, recebi a notícia de que minha médica havia se desligado. O convênio não cobre o teste e o preço é proibitivo para mim, de modo que apenas poupei o trabalho de um atendente que teria de me ligar para avisar e lidar com mais uma paciente frustrada.

Não estou frustrada. Estou de luto.

Isso não é exagero, tampouco pessoal. Quem necessita de atendimento psiquiátrico contínuo, principalmente se depende de plano de saúde, vai entender o que estou falando.

Ao longo desses cinco anos, passei por muita coisa, algumas desesperadoras. Há pouco mais de três anos, a Dra. esteve comigo durante uma grave e longa crise, com ideações suicidas. Quando eu estava com meu pai no hospital, antes de ele morrer, ela me atendeu por vídeo. Ela tratou comorbidades e não aumentava a medicação à toa. Ela confiava em mim para administrar a doença.

Nos últimos tempos, eu estava passando por um conflito que vez ou outra ressurge. Eu estava com medo de seguir com um projeto importante porque tinha medo que fosse apenas sintomas de mania, de que eu não fosse capaz. Ela me mostrou a diferença entre as coisas, fazendo com que eu resgatasse meu histórico e me visse como eu sou de fato em mania.

E alertou: “E você pensa demais”. Ela não disse isso em tom de repreensão nem de forma grosseira. Realmente, como paciente de TAB (transtorno afetivo bipolar), preciso levar isso em conta. O volume e a velocidade dos pensamentos em nossa cabeça são incalculáveis. Que médico vai acolher uma paciente com esse sintoma, pensar demais? Será que ele ou ela vai ter a paciência que a Dra. tinha para ouvir meus devaneios?

Como a maioria dos pacientes psiquiátricos, não tenho condições de bancar um tratamento particular. Quem necessita de atendimento por convênio e já teve pelo menos uma experiência com um médico adequado sabe a desgraça que é. Normalmente você tem acesso a clínicas que contam com muitos médicos em seus quadros e com uma rotatividade grande.

Os pacientes são agendados como se estivessem numa linha de produção. O médico ou médica tem um tempo limite de duração da consulta. Se ultrapassar, tranca a linha, e as peças seguintes ficam malfeitas. E como recriminar os médicos? Os planos de saúde pagam um valor baixíssimo por consulta. E uma parte ainda fica com a clínica. Medicina é um trabalho, não um voluntariado ou um ato de amor.

Sabe? Eu tinha um pressentimento já há algum tempo. Não um pressentimento místico, mas um pressentimento de quem pensa demais. Sabia que ela iria embora, era só questão de tempo. Às vezes até pensava: o que ela tá fazendo aqui? Ela não combinava com esse perfil. Mas não me preparei para esse momento.

Essas clínicas de convênio ainda têm isso: você não pode ter contato direto com seu médico. Assim, tudo que tive foi um informe burocrático de uma atendente pelo WhatsApp. Foi dessa forma que se rompeu uma relação de confiança construída ao longo de cinco anos. Fiquei suspensa no ar. É um ciclo que não se encerrou, e fiquei presa num limbo para o qual não vejo saída completa.

Não sou dessas pessoas que acham que são especiais para seus médicos. Sou uma entre as centenas de pacientes que já passaram pelas mãos da Dra. Acontece que, diferentemente de outras especialidades, a relação paciente-psiquiatra leva tempo para ser construída. É um trabalho quase artesanal, em que o médico precisa conhecer seu paciente e a cada consulta aparar arestas, lapidar e polir.

Hoje começo uma saga, a loteria dos médicos. Tentei marcar com um que conheço, mas ele não atende meu plano de saúde. Então aceitei qualquer um que a agenda virtual ofereceu. Honestamente, estou tão cansada que não tive vontade nem de fazer o básico: pesquisá-lo na internet.

Se eu tiver sorte, ele vai ler meu prontuário, ver o resultado dos exames que a Dra. havia pedido (e tirar minhas dúvidas), perguntar como passei os últimos dois meses – principalmente as festas de fim de ano, período que pode detonar gatilhos –, ajustar ou não a medicação e marcar a próxima consulta. Em uma situação normal, com um bom médico, isso já é complicado. Você tem que começar tudo de novo, contar sua história do zero, reviver coisas difíceis. É tudo parte de um processo necessário, nunca indolor.

Não sei se vou ter paciência para ficar testando médicos. Por isso, já estou trabalhando para aceitar a hipótese mais provável: ter um CRM pra continuar me medicando. Sinto muito pela minha psicóloga, de verdade. Teremos mais trabalho pela frente. Uma membra da equipe partiu.

A Dra. foi a melhor psiquiatra que tive. Foi um relacionamento de cinco anos que chegou ao fim sem um fechamento. Essa foi uma das perdas mais significativas que já tive. Meu grau de consciência sobre minha saúde mental não melhora as coisas. Pelo contrário, piora. Racionalizar significa, às vezes, ter a certeza de que você não pode consertar certas coisas.

Por isso, estou sofrendo sim. Estou de luto sim.

Obrigada por tudo, Dra.! Mas não posso deixar de dizer que isso é uma merda.


BÔNUS: Histórias de consultório – uma amostrinha das coisas inusitadas e bizarras que já vivi dentro de um consultório psiquiátrico.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

POR LU CANDIDO :: Desde criança tento uma carreira de escritora, mas a doença me afastou deste caminho por muito tempo. Até que, assistindo a um evento on-line no ano passado, consegui me enxergar de novo naquele lugar que havia abandonado. Foi como voltar pra casa depois da guerra.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

POR LU CANDIDO :: Os estudos sobre psicodélicos e saúde mental ganharam enorme destaque nos últimos anos na imprensa mundial, chamando a atenção para o mundo da psiquiatria sobre essa possibilidade de fato promissora. O New York Times chegou a falar em “revolução na psiquiatria” com o uso de MDMA.

É extremamente positivo que a comunidade científica consiga se voltar e obter apoio público a uma área por décadas execrada socialmente. Mas vamos colocar um pouquinho de ciência e crítica nessa fogueira?


O que é psicodélico?

As substâncias psicoativas – ou psicotrópicas – produzem experiências mentais, alucinógenas ou não, que têm efeito na vida consciente de quem usa. Daí a importância para o tratamento de questões de saúde mental, psiquiátricas ou psicoemocionais.

O uso dessas substâncias é milenar. A ayahuasca, um chá extraído de uma espécie de cipó, por exemplo, já era parte dos rituais dos povos originários do Brasil muito antes de os colonizadores chegarem aqui. No México (e em parte do território contíguo dos EUA, principalmente no Texas e no Novo México), encontramos o peiote, uma espécie de cacto. É usado em rituais, mas também para fins medicinais.

Há muitos outros exemplos. Ou seja, essa não é uma descoberta vinda do nada. O uso de psicodélicos tem uma história.

Cortando para o século 20, em 1938 um químico suíço, chamado Albert Hofmann, criou o LSD a partir do ácido lisérgico, extraído do
Claviceps purpúrea
, ou esporão-do-centeio, um fungo alucinógeno que ataca o centeio. Em 1958, ele conseguiu isolar a psilocibina, a grande estrela do momento.

A partir da década de 1960, começa a ser registrado o uso recreativo dessas substâncias.


O hype

Com o uso recreativo, os psicoativos passaram a ser retratados pela mídia – principalmente, mas pelas instituições científicas também, vale ressaltar – de forma extremamente negativa. Isso se deu em determinado contexto social e político, exacerbando o preconceito, marginalizando os usuários e colocando essas drogas na ilegalidade até hoje.

De cerca de uma década e meia para cá, os estudos médico-científicos ganharam força. Isso é positivo, pois há uma carência de drogas para o tratamento de diversas condições mentais. Alguns pacientes, por exemplo, apresentam resistência às medicações existentes. Outros sofrem efeitos colaterais que inviabilizam a continuidade da administração de determinada droga.

Porém foi nos últimos dois ou três anos que os tratamentos com psicodélicos viralizaram. A palavra “hype”, em inglês, significa moda. Vamos traduzir como “pico de euforia”. É o que estamos vivendo com a perspectiva dos tratamentos com psicodélicos. Aqui vou roubar descaradamente a cientista Gabriela Bailas (e agradecê-la, porque não sou da comunidade científica e só tive acesso ao abstract), que fez um post ótimo (acesse aqui) sobre o tema com um artigo do JAMA Psychiatry,Preparando-se para estourar a bolha do hype dos psicodélicos.

O texto destaca o “número perturbadoramente grande de artigos” que “divulgou os psicodélicos como uma cura ou droga milagrosa” e menciona o “potencial de investimento dos psicodélicos atingindo bilhões de dólares”. É evidente que isso interfere no rigor científico e na aplicação de pesquisas com cautela e respeito ético, como as pesquisas duplo-cego, por exemplo.

De um lado, os entusiastas dos psicodélicos não levam em conta os riscos, quando “esses riscos estão bem estabelecidos”. É sabido há muito tempo que existem grupos de risco para o uso de psicoativos.

Por exemplo, em pessoas com predisposição (histórico familiar principalmente) a psicoses (esquizofrenia, transtorno bipolar) e transtorno de personalidade limítrofe (borderline) os psicoativos podem funcionar como gatilho para desenvolvimento das doenças e surtos psicóticos. Também é destacado o risco de intoxicação e uma diversidade de efeitos colaterais que podem inviabilizar a continuidade do tratamento, como qualquer outra droga.

Além disso, “o potencial de tratamento dos psicodélicos é real”, diz o artigo, “mas é menos impressionante do que o esperado”. Para embasar essa informação, o texto se refere a um “estudo recente comparando a psilocibina com tratamento padrão-ouro da depressão”.

Já os supercéticos reduzem os efeitos subjetivos a “um estado psicótico de delírio”. Essa é uma visão equivocada. Estudos científicos demonstraram que o tratamento apresenta resposta positiva e significativa “com efeitos favoráveis persistentes para a maioria das pessoas”.

Aonde isso vai dar?

No post da Gabriela, há um gráfico do “ciclo do hype”, no qual não vamos nos aprofundar. Em resumo, há um primeiro momento de descoberta que empolga até chegar em um pico de expectativas infladas, onde supostamente estamos agora. Ocorre então um declínio pela frustração com a não realização das expectativas. Após o declínio, “avaliações bem calibradas do estado da evidência podem começar a ocorrer”. Por fim, atinge-se o “platô da produtividade”, “o contexto social em que a pesquisa rigorosa e as aplicações clínicas responsáveis florescem com mais eficácia”. É o que desejamos que aconteça.

Aonde vamos chegar, não sabemos. Há muita coisa em jogo. Antes de romantizarmos o tratamento, de o entendermos como um meio alternativo e de criarmos ideologias sobre o uso dos psicodélicos, é preciso descer à Terra e pôr os pés no chão. A divulgação irresponsável apenas dos sucessos do estudo, como se fosse uma panaceia, pode levar ao uso sem critérios dessas substâncias, causando estragos irreparáveis. A divulgação precisa, no mínimo, conter alertas sobre restrições populacionais e efeitos colaterais.

Não é a alternativa. É mais uma alternativa no rol de tratamentos que conhecemos até então. Não podemos esquecer que existem outras opções além das drogas químicas, como a eletroconvulsoterapia (controversa, mas existe) e a estimulação magnética transcraniana.

Ao mesmo tempo, e talvez o mais importante, a indústria farmacêutica impulsiona esse hype. Em artigo à respeitada revista científica Nature
(“As promessas e perigos da farmacologia psicodélica para a psiquiatria”), os cientistas Tristan D. McClure-Begley e Bryan L. Roth destacam que as descobertas sobre os psicodélicos “inspiraram uma ‘corrida do ouro’ de interesse comercial, com quase sessenta empresas já formadas para explorar oportunidades de psicodélicos no tratamento de diversas doenças”.

Por fim, é preciso descriminalizar e legalizar as drogas. Nos EUA, algumas farmacêuticas já estão se movimentando nesse sentido. Em outros lugares, pode não ser tão lucrativo, e o tratamento corre o risco de virar luxo de poucos que podem pagar. Em todo o caso, por uma questão de coerência, essa bandeira deveria estar hasteada ao lado da defesa dos psicodélicos.

Não pretendemos aqui esgotar o assunto. Nossa pretensão é lançar um raio num céu azul, suscitar um debate sobre um tema de suma importância que vem sendo tratado como mais uma descoberta capitalista – e é só isso que vai ser se não problematizarmos a questão e não a levarmos a sério.

Em um mundo dominado por mídias sociais, não é difícil que essa se torne uma guerra de opiniões baseadas em informações superficiais e valores morais, o que não deveria nunca atravessar a ciência.






sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

POR LU CANDIDO :: 

“Heroes”. Era a música que tocava no meu fone enquanto o avião sobrevoava baixo as ilhas do Guaíba antes de tocar a pista do aeroporto Salgado Filho. Meu casaco ignorava os trinta graus lá fora, e a quantidade de remédios na minha mochila indicavam que a volta da minha viagem improvisada ia demorar um bom tempo.

sexta-feira, 5 de junho de 2020


POR LU CANDIDO ::
Estamos diante de uma crise de proporções inimagináveis sob vários aspectos – sanitário, político, econômico e social. No meio do caos, temos a difícil tarefa de lutar contra um vírus. Uma coisa que tem massa e volume.

terça-feira, 26 de maio de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Estreamos ontem, com orgulho, um novo espaço deste blog, a Sala de Espera. Alguns probleminhas técnicos e um pequeno nervosismo inicial desta que vos escreve não abalaram o nosso sentimento de missão (bem) cumprida. Acho que posso falar pelas gurias também, a Michele e a Carol que foram demais ontem. Mas calma! A estreia foi apenas a primeira missão.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Eu estava em dúvida sobre escrever este texto, pois envolve discussões éticas e morais muito mais profundas do que posso garantir aqui. A morte é coisa muito sensível e, sobretudo neste momento, é preciso ter cuidado ao abordá-la. Contudo, após ler uma notícia hoje à tarde, senti quase obrigação de levantar uma reflexão. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Comecei a quarentena cedo. No dia 11 de março, acordei com sintomas de gripe e tinha ido a um evento no qual podia ter tido contato com o vírus. Cheguei a me questionar se não estava exagerando, mas preferi errar pelo excesso, decisão que foi ratificada pela minha médica.

sexta-feira, 27 de março de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Estamos nos aproximando do ponto mais crítico de infecção pelo coronavírus. Os casos e as mortes começarão a crescer em de forma exponencial.* No momento em que eu escrevo este texto, 25.427 pessoas já morreram de COVID-19 no mundo, 77 delas no Brasil.

Foto: Comboio de caminhões do Exército italiano chega a cemitério com corpos de vítimas do coronavírus (Folhapress)


Em minhas pouco mais de quatro décadas de vida, nem por um segundo imaginei que viveria algo parecido. O fato é que não existe nenhuma possibilidade de algo dessa dimensão não mudar comportamentos sociais e a forma como nos relacionamos e, sobretudo, não questionar a sociedade na qual vivemos.

Os efeitos psicológicos dessa crise são muitos e ainda estão por se ver. Estamos tentando oferecer apoio na medida do possível de forma responsável. No entanto, preciso fazer uma pausa para tratar de algo mais urgente que precede: o combate à COVID-19.

Esta semana, o presidente Bolsonaro fez um pronunciamento na TV que estarreceu a maior parte da população.** Atacou as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), tratou a COVID-19 como um resfriadinho, uma gripezinha, defendeu o retorno às aulas e atacou a imprensa que, por mais problemas que tenha, contribui com informação, que é crucial. 

Essa não é só mais uma bravata do presidente. Também não é irresponsável, porque acredito que ele tenha preparado a fala de forma consciente. Ele é responsável por suas palavras e por suas consequências, e é uma fala criminosa. Ele manda as pessoas tentarem a sorte num momento em que a doença e a morte alteraram a vida do ser humano em todo o planeta.

O novo coronavírus pode levar à morte quase meio milhão de pessoas no Brasil. Estudos mais recentes chegam a falar em dois milhões de óbitos. O exemplo da Itália é emblemático. A doença disparou depois de o governo ter afrouxado as regras da quarentena.

A ciência está trabalhando. A produção de artigos científicos bateu recordes. Porém ainda não há outro jeito de parar a transmissão do coronavírus que não seja com o isolamento. A experiência dos outros países comprova isso. Por que só o Brasil seria diferente?

O comportamento de Bolsonaro desafia a lógica (e a psicologia). Como alguém pode ter tanta certeza de que tem soluções mais corretas que a OMS, os cientistas, a maioria das autoridades do mundo inteiro? É preciso ser um pouco doente para isso, é verdade. Inclusive porque ele já deu inúmeras mostras de que não é tão entendido assim.

Acontece que, além do narcisismo meio sociopata do presidente, existe uma guerra em curso. De um lado, dizem, está a economia que não pode parar, o capital. De outro, está a vida e os direitos de milhões de pessoas. Um desses lados joga muito sujo e é perverso.

Algo está muito errado
Quando Bolsonaro fez aquele pronunciamento, não estava preocupado com você, nem com seu emprego, nem com os pequenos proprietários. Estava atendendo os banqueiros que lucraram mais de R$ 81 bilhões no ano passado, os megaempresários, o dono do Madero – uma rede de restaurantes que eu nem sabia que existia –, que acha que o Brasil não pode parar por causa de 5 ou 7 mil mortes.

Todos eles pensam a mesma coisa que o dono do Madero. O que assusta é o fato de se sentirem à vontade para despejar isso com naturalidade em público. É preciso um pouco – ou muito – de psicopatia para isso. Para quem acha normal, também. Porém só isso não explica.

O que acontece é que a economia está ameaçada, como eles dizem, e é verdade. Por essa economia que eles falam, entenda-se o sistema capitalista. Nesses momentos de crise tudo fica evidente. Eles dizem que não há dinheiro. Será? Vejamos.

Os três maiores bancos privados – Santander, Bradesco e Itaú – lucraram sozinhos, em 2019, R$ 63 bilhões. Junior Durski, o tal dono do Madero, lucrou R$ 300 milhões. O Luciano Hang, o velho da Havan, R$ 5,4 bilhões. Quando eu digo lucro, estou referindo-me ao que sobrou limpinho para eles depois de pagar todas as despesas, as máquinas e os salários miseráveis de todos os seus funcionários.

Também no ano passado, o governo brasileiro gastou mais de R$ 1 trilhão em juros e amortizações da dívida pública, que nada mais é do que agiotagem, porque essa dívida já foi paga sei lá quantas vezes. Esse dinheiro vai para banqueiros e fundos de investimento internacionais. Sem falar que o país tem quase R$ 2 trilhões na reserva internacional, uma espécie de poupança.

Dito isso, pergunto: nós seremos os responsáveis por quebrar a economia? Cadê esse dinheiro agora? Quanto essa gente vai liberar para construir leitos, custear a quarentena dos mais pobres, subsidiar os autônomos e os informais? Por que nossos salários têm que ser reduzidos para dar dinheiro a eles? Por que vamos perder nossas férias se fizermos quarentena? A única economia que nos diz respeito é a do salário no fim do mês e do malabarismo para pagar os boletos.

A campanha do governo contra a quarentena tem um objetivo: garantir que a economia não pare somente para que os lucros não caiam. A propósito, essa campanha custou R$ 4,8 milhões aos cofres públicos – 70 respiradores que deixaram de ser comprados. Fica fácil entender por que eles querem salvar a economia. Talvez tenham pensado que queimar algumas vidas não seja uma má ideia.

Eles falam em caos social caso a economia pare. Caos social nós já vivemos. Nas comunidades carentes, fazer quarentena é um desafio. Famílias são obrigadas a viver em residências inadequadas; 50% das moradias não têm saneamento; há doze milhões de desempregados; o Brasil tem uma população de rua que daria para povoar um país. Então nos dizem que podemos circular, levar nossos filhos à escola.

Enquanto isso, onde eles estão? Isolados em suas mansões milionárias, servidos por empregados, com todo conforto e assistência que ultrapassam muito o necessário. Alguns fugiram para bunkers e hotéis de luxo no início do mês.


Desculpem-me, mas eu não estou nem aí para os milhões ou bilhões que eles vão perder. Com o dinheiro deles, seria possível salvar milhares de vidas. Eles são responsáveis por todas as mortes que poderiam ser evitadas.

Estamos abandonados
Acredito que podemos estar com uma oportunidade fantástica nas mãos, embora dentro de uma catástrofe monstruosa. Nesse cenário, faremos escolhas. Sempre estivemos abandonados por eles. A diferença é que agora ficou mais evidente. Mas estamos juntos, sabemos quem são os nossos.

Tenho visto bonitos gestos de solidariedade. Vejo as conversas nas janelas da Itália e da Espanha, a imagem linda da Rocinha brilhando para os profissionais da saúde, as greves dos operários da Itália (que começam a surgir no Brasil). Vejo os flertes nas lajes da minha rua. Vejo meus amigos oferecendo ajuda para os meus pais que estão longe. Vejo as comunidades se organizando.

Precisamos parar agora. Não é só por você: é pelas pessoas que você ama, é pelo outro. Não caia na conversa de quem só está interessado em pular numa piscina de dinheiro no final do ano.

Quem pode trabalhar em casa tem que se isolar imediatamente se ainda não o fez. Temos que ajudar os que ainda são obrigados a se expor a parar também. Podemos fazer nossa própria campanha para que todos possam parar sem medo de terem seus salários descontados, de perderem seus empregos. Podemos participar dos protestos nas redes sociais, gravar vídeos, se lá. Brasileiro é um bicho criativo.

Se expulsássemos Bolsonaro, tenho certeza que saberíamos governar bem melhor. Apresentaríamos medidas eficientes para combater a COVID-19 e evitaríamos milhares de mortes. Nós conhecemos a realidade, nós a vivemos e sabemos de que precisamos. Já vimos que o dinheiro existe.

Se todo mundo parar, eles são nada. O dono do Madero não sabe fritar um hambúrguer nem para ele mesmo comer. O dono da Havan vai ficar com suas lojas entulhadas. Os donos de fábricas não sabem apertar um parafuso. Tudo que eles têm, fomos nós que produzimos, cada centavo.

Vamos ver quem precisa de quem.


* Quando terminei o texto, já eram 27.216 mortes no mundo, 92 no Brasil.

** Logo depois que publiquei este texto, recebi a entrevista de Jair Bolsonaro ao Datena. Ele disse: “Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida.” Acho que já chega. Não podemos ficar nas mãos de um psicopata assassino. Nossa sobrevivência passou a depender de tirar esse sujeito de lá.





terça-feira, 10 de março de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Sabe quando você lembra de alguém e pensa: “Que saudade, amanhã vou ligar.” Não cometa este erro. Ligue hoje. Eu disse “amanhã vou ligar” e não houve amanhã. Agora está doendo demais.

sábado, 18 de janeiro de 2020

POR LU CANDIDO :: 
Sentou-se no chão diante da mala enorme. Havia dado uma missão a si mesma: desfazer-se de tudo que não era útil ou não fazia sentido. Pra dizer a verdade, estava mais para um dever de casa da terapia. Entre as comorbidades da doença, estava uma incômoda tendência à acumulação e ao colecionismo.

sábado, 2 de novembro de 2019



POR LU CANDIDO :: 
Eu tinha uns quatro anos. Passava os dias na casa da minha avó enquanto meus pais trabalhavam. Havia um quintal grande com um pomar onde meus primos, as crianças da vizinhança e eu brincávamos. Mas quando chegava outubro, eu esquecia tudo isso.

Foto: Bilhete que escrevi para a minha mãe em 1984, provavelmente em outubro ou novembro.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

POR LU CANDIDO ::
Estamos acostumados a usar algumas expressões generalizadoras sem pensar muito no que significam de fato. A palavra “bizarro”, por exemplo. Você sabe o que significa? Segundo o dicionário Houaiss: